sábado, 6 de janeiro de 2024

Psiquiatria em obras de arte [1] - Transtorno Por Uso de Álcool

 

Obra: A Ressaca (Gueule de Bois)
Autor: Henri de Toulouse-Lautrec
Ano1888


A Ressaca (Gueule de Bois), obra do francês Henri de Toulouse-Lautrec é uma pintura que retrata o abuso de álcool. Toulouse-Lautrec sempre demonstrou aptidão para pintura e, aos 21 anos, abriu seu próprio estúdio. A obra “A Ressaca” foi criada no século XIX e foi inspirada em um relacionamento conturbado que viveu. Ele decidiu representar sua amante em uma obra e pintou-a como uma bêbada [1]

O artista apresentava abuso de álcool e foi internado em uma clínica para reabilitação em 1899. Durante a internação, pintou uma série de quadros para provar sua sanidade e recebeu alta. Após a liberação da clínica, mesmo com acompanhamento constante, continuou enfrentando o alcoolismo e uma vida devassa, falecendo aos 36 anos nos braços de sua mãe [1].

O transtorno por uso de álcool é definido por um grupo de sintomas comportamentais e físicos, os quais podem incluir abstinência, tolerância e fissura. Como a abstinência de álcool pode ser desagradável e intensa, os indivíduos podem continuar o consumo apesar de consequências adversas. Indivíduos com transtorno por uso de álcool podem dedicar grandes períodos de tempo para obter e consumir bebidas alcoólicas. A fissura por álcool é indicada por um desejo intenso de beber, o qual torna difícil pensar em outras coisas e frequentemente resulta no início do consumo [2]

         

Fontes:
[1] https://jamanetwork.com/journals/jamapsychiatry/fullarticle/208822
[2] DSM-5, página 492.

sábado, 11 de março de 2023

Conto: A Policitemia de Dona Lindoca - Autor: Monteiro Lobato.


Imagem: Reprodução.

Dona Lindoca não era feliz. Quarentona bem puxada, apesar dos trinta e sete anos em que fizera finca-pé, via pouco a pouco chegar a velhice com seu empaste de feições, rugas e macacoas.

Não era feliz, porque nascera com o gênio da ordem e do asseio meticuloso – e agente assim passa a vida a amofinar-se com criados e coisinhas. E como também nascera casta e amorosa, não ia com o desamor e desrespeito do mundo. O marido jamais lhe retribuíra o amor como os mimos entressonhados em noiva. Não tinha “caídos”, nem usava para a sua sensibilidade, sempre menineira, desses pequeninos nada cariciosos que para certas criaturas constituem a suprema felicidade na terra.

Isso, porém, não traria a dona Lindoca mal de monta, excedente a suspiros e queixas às amigas, se a certeza da infidelidade do Fernando não visse um dia estragar tudo. Estava a boa senhora a escovar-lhe o paletó quando sentiu vago aroma suspeito. Foi logo aos bolsos – e apanhou o corpo de delito num lencinho perfumado.

– Fernando, você deu agora para usar perfume? – indaga a santa esposa, aspirando o lenço comprometedor. E “Coeur de Jeannette”, inda mais…

O marido, pegado de surpresa, armou a cara mais alvar de toda a sua coleção de “caras circunstanciais” e murmurou o primeiro rebate sugerido pelo instinto de defesa: – você estar sonhado, mulher…

Mais teve de render-se à evidência, logo que a esposa lhe chegou ao nariz o crime.

Há coisas inexplicáveis, por mais lépida que seja a presença de espírito de um homem traquejado. Lenço cheiroso no bolso de marido que jamais usou perfume, eis uma. Põe em ti o caso, leitor, e vai estudando desde já uma saída honrosa para a hipótese de te suceder o mesmo.

– Pilhéria de mau gosto do Lopes …

O melhor que lhe acudiu foi lançar à conta do espírito brincalhão do seu velho amigo Lopes mais aquela. Dona Lindoca, está claro, não engoliu a grosseira pílula – e desde aquele dia entrou a suspirar suspiros de um novo gênero, com muita queixa às amigas sobre a corrupção dos homens.

Mais a realidade era diferente de tudo aquilo. Dona Lindoca não era infeliz; seu marido não era um mau marido; seus filhos não eram maus filhos. Gente toda ela muito normal, vivendo a vida que todas as criaturas normais vivem.

Dava-se apenas o que se dá sempre na existência da generalidade dos casais pacíficos. A peça matrimonial “Multiplicativos” tem um segundo ato em excesso trabalhoso na procriação e criação dos rebentos. É uma doradoura de anos, na qual os atores principais mal têm tempo de cuidar de si, tanto lhes monopolizam as energias os cuidados absorventes da prole. Nesse período longo e rotineiro, quanto perfume vago não trouxe da rua o doutor Fernando! Mas o olfato da esposa, sempre saturado com o cheirinho das crianças, jamais deu tento de nada.

Um dia, porém, começou a dispersão. Casaram-se as filhas e os filhos foram deixando o borralho um por um, como passarinhos que já sabem fazer uso das asas. E como o esvaziamento do lar ocorreu no período muito curto de dois anos, o vácuo trouxe a dona Lindoca uma penosa sensação de infelicidade.

O marido não mudara em coisa nenhuma, mas como só agora dona Lindoca tinha tempo de dar-lhe atenção, parecia-lhe mudado. E queixava-se dos seus eternos negócios fora de casa, de sua indiferença, do seu “desamor”. Certa vez, perguntou-lhe ao jantar:

– Fernando, que dia é hoje?

– Treze, filha.

– Treze, só?

Está claro que treze só. Impossível que fosse treze e mais alguma coisa. É da aritmética.

Dona Lindoca arrancou um suspiro dos mais sugados.

– Essa aritmética antigamente era bem mais amável.

Pela aritmética antiga, hoje não seria treze só – e sim treze de julho…

O doutor Fernando bateu na testa.

– É verdade, filha! Não sei como me escapou que é hoje dia dos teus anos. Esta cabeça…

– Essa cabeça não falha quando as coisas a interessam. É que para você eu já passei… Mas console-se meu caro. Não me ando sentindo bem e breve deixarei você livre no mundo. Poderá então, sem remorso, regalar-se com as Jeannettes…

Como as recriminações alusivas ao caso do lenço perfumado fossem uma “Scie”, o marido adotara a boa política de “passar”, como no pôquer. “Passava” todas as alusões da esposa, meio eficaz em torcer em germe o pepino de um debate tão inútil quão indigesto. Fernando “passou” a Jeannette e aceitou a doença.

– Sério? Sente qualquer coisa, Lindoca?

– Uma ansiedade, uma canseira, isto desde que vim de Teresópolis.

– Calor. Estes verões cariocas derrancam até aos mais pintados.

– Sei quando é calor. O mal-estar que sinto deve ter outra causa.

– Nervoso, então. Por que não vai ao médico?

– Já pensei nisso. Mais, a qual médico?

– Ao Lanson, filha. Que idéia! Pois não é o médico da casa?

– Deus me livre. Depois que matou a mulher do Esteves? Isso quer você…

– Não matou tal, Lindoca. É tolice propalar essa maldade inventada por aquela caninana da Marocas. Ela é que diz isso.

– Ela e todos. Voz corrente. Além do mais, depois daquele caso da corista di Trianon…

O doutor Fernando espirrou uma gargalhada.

– Não diga mais nada! – exclamou. – adivinho tudo. A eterna mania.

Sim, era a mania. Dona Lindoca não perdoava a infidelidade do marido, nem do seu nem do das outras. Em matéria de moralidade sexual não cedia milímetro.

Como fosse de natural casta, exigia castidade de todo mundo. Daí o desmerecerem ante seus olhos todos os maridos que na voz das comadres andavam de amores fora do ninho conjugal. Aquele doutor Lanson perdera-se no conceito de dona Lindoca não porque houvesse “matado” a mulher do Esteves – pobre tuberculosa que mesmo sem médico tinha de morrer –, mas porque andara às voltas com uma corista.

A gargalhada do marido enfureceu-a.

– Cínicos! São todos os mesmos… Pois não vou ao Lanson. É um sujo. Vou ao doutor Lorena, que é homem limpo, decente, um puro.

– Vai filha. Vai ao Lorena. A pureza desse médico, que eu cá chamo hipocrisia requintada, com certeza lhe há de ajudar muito a terapêutica.

– Vou sim, e nunca mais me há de entrar aqui outro médico. De Lovelaces ando eu farta – concluiu dona Lindoca sublinhando a indireta.

O marido olho-a de soslaio, sorriu filosoficamente e, “passando” o “Lovelaces”, pôs-se a ler os jornais.

No dia seguinte, dona Lindoca foi ao consultório do médico puritano e voltou radiante.

– Tenho uma policitemia – foi logo dizendo. – garante ele que não é grave, embora requeira tratamento sério e longo.

– Policitemia? – repetiu o marido com vincos na testa, sinal de que entendia suas pitadas de medicina.

– Que espanto é esse? Policitemia, sim, a doença da minha margarida e da grã-duquesa Estefânia, disse-me o doutor. Mas cura-me, assegurou – e ele sabe o que diz. Como é fino o doutor Lorena! Como sabe falar!…

– Sobretudo falar…

– Já vem você. Já começa a implicar com o homem só porque é um puro… Pois, quanto a mim, só sinto té-lo conhecido agora. É um médico decente, sabe? Fino, amável, muito religioso. Religioso, sim! Não perde a missa das onze na Candelária.

Diz as coisas de um modo que até lisonjeia agente. Não é um sujo como o tal Lanson, que anda metido com atrizes, que vê humores em tudo e põe as clientes nuas para examiná-las.

– E o teu Lorena como as examina? Vestidas?

– Vestidas, sim, está claro. Não é nenhum libertino. E se o caso exige que a cliente se dispa em parte, ele aplica os ouvidos mas fecha os olhos. É decente, ora aí está! Não faz do consultório casa de encontros.

– Venha cá, minha filha. Noto que você fala com leviandade de sua doença. Tenho minhas noções de medicina e parece-me que essa tal policitemia…

– Parece nada. O doutor Lorena afirmou-me que não é coisa de matar, embora de cura lenta. Doença até distinta, de fidalgos.

– De rainha, grã-duquesa,sei…

– Só que exige muito tratamento – sossego, regime alimentar, coisas impossíveis nesta casa.

– Por quê?

– Ora essa. Quer você que uma dona de casa possa cuidar de si tendo tanta coisa em olhar? Vá a pobre de mim deixar de matar-se na trabalheira para ver como isto vira de pernas para o ar. Tratamento na regra, só para essas que tomam o marido das outras. A vida é para elas…

– Deixemos isso, Lindoca, até cansa.

– Mas vocês não se cansam delas.

– Elas, elas! Que elas, mulher? – exclamou, já exasperado, o marido.

– As perfumadas.

– Bolas.

– Não briguemos. Basta. O doutor… ia-me esquecendo. O doutor Lorena quer que você apareça por lá, no consultório.

– Para quê?

– Ele dirá. Das duas às cinco.

– Muita gente a essa hora?

– Como não? Um médico daqueles…Mas a você não fará esperar. É negócio à parte da clínica. Vai?

O doutor Fernando foi. O médico desejava adverti-lo de que a doença de dona Lindoca era grave, havendo perigo sério caso o tratamento que prescrevera não fosse seguido à risca.

– Muito sossego, nada de contrariedades, mimos. Principalmente mimos. Indo tudo a contento, num ano poderá estar boa. Do contrário, teremos mais um viúvo em pouco tempo.

A possibilidade da morte da esposa, quando assim se antolha pela primeira vez ao marido de coração sensível, abala profundamente. O doutor Fernando deixou o consultório e rodando para casa ia a recordar o tempo róseo do namoro, o noivado, o casamento, o enlevo dos primeiros filhos. Não era meu marido. Podia até figurar entre os ótimos, no juízo dos homens que se perdoam uns aos outros os pequenos arranhões no pacto conjugal, filhos da curiosidade adâmica.

Já as mulheres não compreendem assim, e dão demasiado vulto a borboleteios que muitas vezes só servem para valorizar as esposas aos olhos dos maridos. Assim é que a notícia da gravidade da moléstia de dona Lindoca despertou em Fernando um certo remorso, e o desejo de redimir com carinhos de noivos os anos de indiferença conjugal.

– Pobre Lindoca. Tão boa de coração… Se azedou um bocado, a culpa foi só minha. O tal perfume… Se ela pudesse compreender a absoluta insignificância do frasco donde emanou aquele perfume…

Ao entrar em casa indagou logo da esposa.

– Está em cima – respondeu a criada.

Subiu. Encontrou-a no quarto, numa preguiçosa.

– Viva a minha doentezinha! E abraçou-a e beijo-a na testa.

Dona Lindoca espantou-se.

– Ué! Que amores esses agora? Até beijos, coisas que me dizias fora da moda…

– Vim do médico. Confirmou-me o diagnóstico. Não há gravidade nenhuma, mas exige tratamento de rigor. Muito sossego, nada de amofinações, nada que abale o moral. Vou ser o enfermeiro da minha Lindoca e hei de pô-la sãzinha.

Dona Lindoca arregalou os olhos. Não reconhecia no indiferente Fernando de tanto tempo aquele marido amável, tão perto do padrão com que sempre sonhara.

Até diminutivos…

– Sim – disse ela –, tudo isso é fácil de dizer, mas sossego de fato, repouso absoluto, como, nesta casa?

– Por que não?

– Ora, você será o primeiro a dar-me aborrecimentos.

– Perdoe-me, Lindoca. Compreenda a situação. Confesso que não fui contigo o esposo entressonhado. Mas tudo mudará. Você está doente e isto vai fazer com que tudo renasça – até o velho amos dos vinte e anos, que não morreu nunca, apenas encasulou- se. Não imagina como me sinto cheio de ternura para com a minha mulherzinha. Estou todo lua-de-mel por dentro.

– Os anjos digam amém. Só receio que com tanto tempo o mel já esteja azedo…

Apesar de mostrar-se assim tão incrédula, a boa senhora irradiava. O seu amor pelo marido era o mesmo dos primeiros tempos, de modo que aquela ternura o fez logo reflorir, à imitação das árvores desfolhadas pelo inverno a um chuvisco de primavera.

E a vida de dona Lindoca mudou. Os filhos passaram a vir vê-la com freqüência – logo que o pai os advertiu da vida periclitante da boa mãe. E mostravam-se muito carinhoso e solícitos. Os parentes mais chegados, também por influxo do marido, amiudaram as visitas, de tal jeito que dona Lindoca, sempre queixosa outrora de isolamento, se fosse queixar-se agora seria de solicitude excessiva.

Veio uma tia pobre do interior tomar conta da casa, chamando a si todas as preucupações amofinantes.

Dona Lindoca sentia um certo orgulho da sua doença, cujo nome lhe soava bem aos ouvidos e fazia abrir a boca dos visitantes – policitemia… E como o marido e os demais lhe lisonjeassem a vaidade enaltecendo o chique das policitemias, acabou por considerar-se uma privilegiada.

Falavam muito na rainha Margarida e na grã-duquesa Estefânia como se fossem pessoas de casa, havendo um dos filhos conseguido e posto na parede o retrato de ambas. E certa vez que os jornais deram um telegrama de Londres, noticiando achar-se enferma a princesa Mary, dona Lindoca sugeriu logo, convencidamente:

– Vai ver que é uma policitemia…

A prima Elvira trouxa de Petrópolis uma novidade de sensação.

– Viajei com o doutor Maciel na barca. Contou-me que a baronesa de Pilão Arcado também está com policitemia. E também aquela grandalhona loura, mulher do ministro Francês – a Grouvion.

– Sério?

– Sério, sim. É doença de gente graúda, Lindoca. Este mundo!… até em questão de doença as bonitas vão para os ricos e as feias para os pobres! Você, a Pilão Arcado e a Grouvion, com policitemia – e lá a minha costureirinha do Catete, que morre dia e noite em cima da máquina de costura, sabe o que lhe deu? Tísica mesentérica…

Dona Lindoca fez cara de nojo.

Eu nem sei onde “essa gente” apanha tais coisas.

Outra ocasião, ao saber que uma sua ex-criada de Teresópolis fora ao médico e viera com o diagnóstico de policitemia, exclamou, incrédula, a sorrir com superioridade:

– Duvido! A linduína com policitemia? Duvido!… Vai ver que quem disse tal bobagem foi Lanson, aquela topeira.

A casa virou perfeita maravilha de ordem. As coisas surgiam à hora e no ponto, como se anões invisíveis estivessem a prover tudo. A cozinheira, ótima, fazia pitéus de arregalar o olho. A arrumadeira alemã dava idéia de uma abelha em forma de gente. A tia Gertrudes era uma nova governanta de casa como jamais existiu outra.

E nenhum barulho, todos na ponta dos pés, com “psius” aos estouvados. E presentinhos. Os filhos e noras jamais esqueciam a boa mamãe, ora com flores, ora com os doces de que ela mais gostava. O marido fizera-se caseiro. Deu jeito aos negócios e pouco saía, e à noite nunca, passando a ler para a esposa os crimes dos jornais nas raras vezes em que não tinha visitas.

Dona Lindoca começou a viver vida de céu aberto.

– como me sinto feliz agora! – dizia. – Mas para que nada haja perfeito, tenho a policitemia. Verdade é que esta doença não me incomoda em nada. Não a sinto absolutamente – além de que é uma doença fina…

O medico vinha vê-la amiúde, mostrando boa cara à doente e má ao marido.

– Demora ainda, meu caro. Não nos iludamos com aparências. As policitemias são insidiosas.

O curioso era que dona Lindoca realmente não sentia coisa nenhuma. O mal-estar, a ansiedade do começo que a levara a consultar o médico, de muito que havia passado. Mas quem sabia da sua doença não era ela, e sim o médico. De modo que enquanto ele não lhe desse alta, teria de continuar nas delícias daquele tratamento.

Certa vez, chegou a dizer ao doutor Lorena:

– Sinto-me boa, doutor, completamente boa.

– Parece-lhe, minha senhora. O característico das policitemias é iludir assim os doentes, e pô-los derreados ou liquidados, à menor imprudência. Deixe-me cá levar o barco a meu modo, que para outra coisa não queimei as pestanas na escola. A grã-duquesa Estefânia também se julgou boa, certa vez, e contra o parecer do médico assistente deu-se alta a si própria…

– E morreu?

– Quase. Recaiu e foi um custo pô-la de novo no ponto em que estava. O abuso, minha senhora, a falta de confiança no médico, tem levado muita gente para outro mundo…

E repetiu ao marido aquele parecer, com grande encanto de dona Lindoca, que não cessava de abrir-se em elogios ao grande clínico.

– Que homem! Não é a toa que ninguém diz “isto” dele, Neste rio de Janeiro das más- línguas. “Amantes, minha senhora”, declarou ele outro dia à prima Elvira, “ninguém me apontará jamais nenhuma”.

O doutor Fernando ia se saindo com uma ironia à moda antiga, mas recolheu-se a tempo, por amor ao sossego da esposa, com a qual jamais esgrimira depois da doença. E resignou-se a ouvir o estribilho de sempre: “É um homem puro e muito religioso. Fossem todos assim e o mundo seria um paraíso”.

Durou seis meses o tratamento de dona Lindoca e duraria doze, se um belo dia não rebentasse um grande escândalo – a fuga do doutor Lorena para Buenos Aires com uma cliente, moça de alta sociedade.

Ao receber a notícia dona Lindoca recusou-se a dar crédito.

– Impossível! Há de ser calúnia. Vai ver como ele logo aparece por aqui e tudo se desmente.

O doutor Lorena jamais apareceu; o fato confirmou-se, fazendo dona Lindoca passar pela maior desilusão de sua vida.

– Que mundo, meu Deus! – murmurava. – em que mais acreditar, se até o doutor Lorena faz dessas?

O marido rejubilou-se, por dentro. Sempre vivera engasgado com a pureza do charlatão, comenta todos os dias em sua presença sem que ele pudesse explodir o grito d’alma que lhe punha um nó na garganta: “Puro nada! É um pirata igual aos outros”

O abalo moral não fez dona Lindoca recair enferma, como era de supor. Sinal de que estava perfeitamente curada. Para melhor certificar-se disso o marido lembrou-se de consultar outro médico.

– Pensei no Lemos de Souza – sugeriu ele. – está com muito nome.

– Deus me livre! – acudiu logo a doente. – dizem que é amante da mulher de Bastos.

– Mas trata-se de um grande clínico, Lindoca. Que importa o que lá do seu namoro dizem as más-línguas? Neste Rio ninguém escapa.

– A mim importa muito. Não quero. Veja outro. Escolha um decente. Sujeiras não admito aqui.

Depois de comprido debate acordaram em chamar Manuel Brandão, professor da escola e já em adiantado grau de senilidade. Não constava que fosse amante de ninguém.

Veio o novo doutor. Examinou cuidadosamente a doente e ao cabo concluiu com absoluta segurança.

– Vossa excelência não tem nada – disse ele. – absolutamente nada.

Dona Lindoca pulou, muito lépida, da sua preguiçosa.

– Então sarei de uma vez, doutor?

– Sarou… Se é que esteve doente. Não consigo ver sinal nenhum em seu organismo de doença presente ou passada. Quem foi o médico?

– O doutor Lorena…

O velho clínico sorriu, e voltando-se para o marido:

– É o quarto caso de doença imaginária que o meu colega Lorena (aqui entre nós, um refinadíssimo patife) leva a explorar durante meses. Felizmente raspo-se para Buenos Aires, ou “desinfetou” o Rio, como dizem os capadócios.

Foi um assombrado. O doutor Fernando abriu a boca.

– Mas então…

– É o que lhe digo – reafirmou o médico. – A sua senhora teve qualquer crise nervosa que passou com o repouso. Mas, policitemia, nunca! Policitemia!… até me espanta que tão grosseiramente pudesse o tal Lorena iludir a todos com essa pilhéria…

A tia Gertrudes voltou para sua casa no interior. Os filhos foram se tornando mais parcos nas visitas – e os demais parentes idem. O doutor Fernando retornou a vida de negócios e nunca mais teve tempo de ler crimes para a desconsolada esposa, sobre cujos ombros recaiu a velha trabalhadeira de zelar pela casa.

Em suma, a infelicidade de dona Lindoca voltou com armas e bagagens, fazendo-a suspirar suspiros ainda mais profundos que os de outrora. Suspiros de saudade. Saudade da policitemia…

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Imagens da hanseníase ao longo da história

    A hanseníase, também conhecida como lepra, é uma doença que vem sendo registrada na literatura desde a Antiguidade, sendo motivo de grande sofrimento para seus portadores em razão do preconceito e do isolamento.

    Na Bíblia, em Levítico 13:43-46, há registro sobre como casos suspeitos de lepra deveriam ser conduzidos e tratados pelos sacerdotes da época:

"Então o sacerdote o examinará, e se a inchação da praga na calva ou na meia calva for branca, tirando a vermelho, como parece a lepra na pele da carne, leproso é aquele homem, é imundo; o sacerdote certamente o declarará imundo; na sua cabeça está a praga. Também as vestes do leproso, em quem está a praga, serão rasgadas; ele ficará com a cabeça descoberta e de cabelo solto, mas cobrirá o bigode, e clamará: Imundo, imundo. Por todos os dias em que a praga estiver nele, será imundo; imundo é; habitará só; a sua habitação será fora do arraial."

    Não se observa indicação de tratamento, tendo a doença sido tratada como hereditária, contagiosa, incurável e uma desgraça para o doente e sua família.

    Esse tipo de visão ainda existe em diversas civilizações, apesar da descoberta do bacilo de Hansen (Mycobacterium leprae) ter ocorrido há cerca de 150 anos por Gerhard Henrik Hansen (Foto 1). 

(Foto 1)


    Na Idade Média, existia uma cerimônia católica chamada Missa da Separação, na qual os "leprosos" eram considerados legalmente mortos, podendo ter seu patrimônio confiscado pela Igreja. Além disso, após a cerimônia eram obrigaos a se isolar da sociedade e a se identificar com sinais sonoros, como apitos ou sinos (Foto 2), para que pessoas "saudáveis" pudessem se afastar deles.

(Foto 2)


    O pintor Rembrandt (1606-1669) pintou o Rei Uzias que, de acordo com a Bíblia, contraiu lepra como castigo por ter desobedecido regras da religião. A obra é intitulada de "O Rei Uzias atacado pela lepra" (Foto 3), onde se observa lesões dermatológicas semelhantes às da doença.

(Foto 3)

    A mais famosa passagem bíblica que retrata a história de um possível portador de hanseníase é a de Lázaro, que tinha o corpo coberto de feridas e estava morto, tendo sido ressuscitado por Jesus.
    No Brasil, usa-se a palavra "lazarento" como sinônimo de leproso, contudo não há confirmação que ele era portador da doença. O pintor Jan Sadeler, em 1590, representou Lázaro na Casa do Homem Rico (Foto 4), estando o personagem bíblico no lado direito, tendo suas feridas lambidas por cães.



    
    São Nicolau de Bari, que viveu entre 270-343 d.c, é retratado na literatura como um homem bondoso e generoso. Após sua morte, seu túmulo era procurado por milhares de pererinos que buscavam a cura de diversas doenças, inclusive a hanseníase. O pintor Gentile da Fabriano mostra em sua obra (Um Milarge de São Nicolau, 1425) a peregrinação dos leprosos em busca da cura (Foto 5).

(Foto 5)

    
    O surgimento das sulfonas na decáda de 1940 mudou a história da doença, tendo em vista que os doentes puderam ser curados e, lentamente, os "leprosários" onde os eram isolados e abandonados, passaram a ficar vazios. Já na década de 1960, a clofazimina e a rifampicina entraram no programa terapêutico, aumentando os índices de cura. 


Fontes:
1) Livro: Medicando com Arte / Autores: Armando J. Bezerra e Jordano Pereira Araújo.  
2) Foto 1: https://pt.wikipedia.org/wiki/Gerhard_Armauer_Hansen
3) Foto 2https://www.ricardocosta.com/
4) Foto 3: https://xaropedeletrinhas.com.br/rembrandt-a-religiao-e-a-medicina/
4) Foto 4: https://reparatoris.files.wordpress.com/
6) Foto 5: https://www.meisterdrucke.pt/artista/Gentile-da-Fabriano.html

domingo, 24 de abril de 2022

Experiência

   
"O Médico da Cidade" - Morgan Weistling


                        Há algum tempo venho anotando ditados que ouço de médicos experientes. Alguns trazem sorrisos assim que são ouvidos, outros nos obrigam a refletir. Selecionei alguns e abaixo os compartilho.


1) Há doenças que são curadas com o médico, sem o médico, e apesar do médico.

2) Da panela em que muita gente mexe, só sai comida insossa ou muito salgada. 

3) Pior que estar doente é ter um mau médico.

4) Ao médico, ao advogado, e ao padre só se diz a verdade.

5) Velho que não anda, desanda.

6) Quando ouvir galopes pense em cavalos, não em zebras.

7) Deve-se evitar dar aos pacientes medicações que sirvam apenas para acalmar o médico. 

8) Para tratar a maioria das doenças dermatológicas, basta-se lembrar do seguinte: se está muito seco, hidrate. Se está muito úmido, seque. Se está pensando em prescrever corticoide, prescreva logo antes que a doença vá embora. 

9) Se você visita um paciente na enfermaria durante a manhã e ele está mal, muito pior ele estará à noite. 

10) Quem pede muitos exames não sabe o que procura.

11) A medicina é uma ciência de verdades provisórias.

12) Os melhores médicos do mundo são Dr Sono, Drª Dieta e Dr Sorriso.

13) Deve-se conhecer melhor o doente do que a doença.

14) O melhor médico é também um filósofo. Se puder curar, cura; se não puder curar, alivia; se não puder aliviar, consola.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Poema: A Velhice - Olavo Bilac



O neto:
Vovó, por que não tem dentes?
Por que anda rezando só?
E treme, como os doentes
Quando têm febre, vovó?

Por que é branco o seu cabelo?
Por que se apóia a um bordão?
Vovó, porque, como o gelo,
É tão fria a sua mão?

Por que é tão triste o seu rosto?
Tão trêmula a sua voz?
Vovó, qual é seu desgosto?
Por que não ri como nós?


A Avó:
Meu neto, que és meu encanto,
Tu acabas de nascer...
E eu, tenho vivido tanto
Que estou farta de viver!

Os anos, que vão passando,
Vão nos matando sem dó:
Só tu consegues, falando,
Dar-me alegria, tu só!

O teu sorriso, criança,
Cai sobre os martírios meus,
Como um clarão de esperança,
Como uma bênção de Deus!


Poema: A Velhice
Autor: Olavo Bilac
Livro: Poesias Infantis

domingo, 21 de fevereiro de 2021

As lições do livro A Vida Intelectual para organização da vida de estudos

    Um dos livros recomendados pelo Prof. Hélio Angotti Neto em suas aulas do Seminário de Filosofia Aplicado à Medicina é A Vida Intelectual, escrito por Antonin Sertillanges em 1920. Confesso que ao ler o nome do livro pela primeira vez questionei acerca de qual seria a relação entre essa obra e a medicina. Folheando as primeiras páginas, o questionamento foi respondido.

 
    O livro é considerado um tesouro para todos aqueles que desejam, ou precisam, ter uma vida de estudos produtiva, organizada e eficaz. De forma ordenada, o autor traz centenas de orientações e lições para que o estudante possa atingir seus objetivos intelectuais. Decidi transcrever vinte e cinco dos principais trechos da obra (na minha opinião) e comentar alguns de forma sucinta.


1) "Obter sem pagar é um desejo universal; mas é o desejo de corações covardes e de cérebros enfermos." Página 29
       
Já no início da obra, Sertillanges alerta aquele que quer se dedicar a vida de estudos que tudo tem um preço e que não se pode obter conhecimento sem pagar o preço que ele requer: disciplina, método e constância. 
        
2) "O que vale mais do que tudo é o querer, um querer profundo: querer ser alguém, chegar a algum lugar." Página 31

3) "Aprenda a administrar esse pouco tempo; mergulhe todos os dias de sua vida na fonte que desaltera e dá ainda mais sede." Página 32

Não é novidade que nosso estilo de vida atual não nos permite ter muitas horas lives, seja você um         estudante ou um profissional. Trânsito, redes sociais, afazeres domésticos, filhos, etc. tudo isso faz         parte da vida e pode parecer um empecilho para aquele que quer dedicar algumas horas à leitura            ou ao estudo. Mas o autor nos mostra que com uma boa organização, podemos "programar" nosso dia e aproveitar os curtos momentos ociosos que desperdiçamos com futilidades.

4) "Um pequeno erro no início torna-se grande no fim." Página 38
  
Iniciar os estudos pelas fontes erradas, com pressa demais ou pelo mais difícil é começar errado e custará um grande preço no final.

5) "Como é possível pensar bem com uma alma doente, com um coração trabalhado pelos vícios, divididos pelas paixões, desorientado pelos amores violentos ou culpáveis?" Página 39

6) "Não pensa na preguiça, onde os melhores dons são sepultados? Na sensualidade, que debilita o corpo e o torna pesado, nubla a imaginação, embota a inteligência, dissipa a memória... Na inveja, que recusa obstinadamente a luz provinda de outrem?." Página 42
 
7) "Não sobrecarregue o solo; não levante a construção além do que a base permite, ou antes que a base esteja firme: isso faria tudo ruir. Quem é você? Onde está? Que alicerces intelectuais já possui?" Página 44
 
São Tomás de Aquino resumiria esse trecho da seguinte forma: "Não busque o que está acima de  ti.". Sabia suas limitações
 
8) "Cuide da alimentação. Uma refeição leve, simples, moderada em quantidade e em condimentos, favorecerá um trabalho mais atento e mais livre. Um pensador não passa a vida em sessões de digestão." Página 51

9) "Para dar hospitalidade à ciência, não são necessários móveis raros, nem numerosos empregados domésticos. Muita paz, um pouco de beleza, certas comodidades que economizam tempo, é tudo que precisa." Página 56

Engana-se quem acredita ser necessário um home office luxuoso para ter um ambiente propício para estudar.

10) "Não corra atrás das novidades que ocupam o espírito em vão." Página 59
    
Todos os dias somos tomados por notícias que em um primeiro momento parecem ser importantes. Discutimos durante horas com nossos parentes, no grupo de WhatsApp, sobre a nomeação do novo ministro e até mesmo sobre a cotação do Dólar. E o dia passa. E nada muda. E não fizemos nada de produtivo. Fomos vítimas da curiosidade vã.

11) "No princípio há muito entusiasmo; depois, com as dificuldades, surge o demônio da preguiça." Página 65

12) "Na medida em que podemos escolher, devemos organizar nossa vida de modo a estar tanto quanto possível em contato com pessoas superiores." Página 68
 
Pessoas superiores não são as pessoas mais ricas ou que ocupam cargos importantes, mas sim pessoas mais virtuosas, nobres de caráter e excelentes no cumprimento de suas vocações. Só temos a aprender com elas.

13) "Uma única palavra ouvida com atenção pode ser um oráculo. Um camponês é às vezes muito mais sábio que um filósofo." Página 79

Esse trecho nos orienta a não desprezarmos ninguém. Há verdade e sabedoria em todas as situações e pessoas.
    
14) "Fuja das conversas vãs, das visitas inúteis; limite a correspondência ao estritamente necessário; apenas passe os olhos pelos jornais." Página 93

15) "Faça alguma coisa ou então não faça nada. O que decidir fazer, faça-o ardentemente, com afinco, de modo que o conjunto da sua atividade seja uma série de vigorosas retomadas. O trabalho pela metade, que é um repouso pela metade, não favorece nem o repouso nem o estudo." Página 94

16) "Os maiores homens sempre se mostraram mais ou menos universais; excelentes em certo campo, foram em outros ao menos curiosos, frequentemente especialistas, e às vezes até mestres." Página 102

Nesse trecho, Sertillanges abre nossos olhos para a importância de ter uma cultura geral. Não precisamos ser ultraespecialistas e resumirmos nosso saber a apenas uma área.

17) "O semicientista não é o que só sabe a metade das coisas, mas o que só as sabe pela metade." Página 113
 
O autor também orienta que devemos ter cuidado para não nos contentarmos em saber as coisas superficialmente.

18) "Ordene seu trabalho para poder dedicar-se por inteiro a ele. Que cada tarefa absorva-o profundamente, como se fosse a única. Era esse o segredo de Napoleão; e o segredo de todos os grandes homens de ação. Os próprios gênios só foram grandes pela aplicação de toda sua força no ponto que tinham decidido focar." Página 118

19) "Temos que ler inteligentemente, e não apaixonadamente. Vamos aos livros como a dona de casa vai ao mercado, já tendo os cardápios do dia definidos conforme as leis da higiene e de uma prudente economia." Página 132
 
O escritor nos orienta a ler o que é necessário para o objetivo que desejamos atingir. Não adianta ser "viciado" em leitura e ir aos livros como um alcoólatra vai ao boteco.
 
20) "Ame os livros eternos, que dizem as verdades eternas." Página 135

21) "Ninguém é infalível; mas o aluno o é bem menos que o mestre, e se recusa a se submeter, para cada vez em que estiver com a razão haverá vinte vezes em que errará a verdade e será vítima das aparências." Página 137
 
Esse trecho é um alerta para que respeitemos e honremos nossos professores. Na maior parte da jornada seremos aprendizes.
 
22) "O que cada um deve procurar conservar em plena luz na sua cabeça e disponível à primeira solicitação é o que constitui a base do seu trabalho, aquilo que sabem, pelo mesmo motivo, todos os espíritos eminentes de sua profissão. Nisso não há negligência possível, e deve ser cumprido no menor prazo possível. Quanto ao resto, será adquirido à medida em que for exigido por uma tarefa particular, sem muito esforço." Página 154
 
É claro que surge a preocupação de dominarmos determinados assuntos, mas devemos distinguir o "essencial" do "importante". Devemos perseguir o essencial e dominá-lo. O importante virá com o dia a dia. 
 
23) "Alguns recorrem aos estimulantes: é um método nefasto. O efeito é apenas momentâneo; é um artifício que se esgota; é preciso aumentar dia a dia a dose... um estimulante mais inocente é a caminhada, seja ao ar livre, seja no próprio escritório. Muitos trabalhadores engrenam seu cérebro através do exercício muscular." Página 185

24) "Para que apressar-se indiscretamente, quando o caminho já é um objetivo, quando o meio já é um fim?" Página 189 

25) "Empreender conforme suas forças, só dizer o que se sabe, não forçar-se a pensar o que não se pensa, a compreender o que não se compreende... que sabedoria!" Página 194

 
Abaixo deixo o link de compra [1] e um "vídeo resenha" da obra [2].
Até logo. 
 
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[1]  https://livrariaib.com/a-vida-intelectual
[2]  https://www.youtube.com/watch?v=3GjQaqFVYvc

domingo, 3 de janeiro de 2021

Ignaz Semmelweis: o médico internado em um hospício por insistir que deveríamos lavar as mãos

   Há algumas semanas me deparei com um comentário, feito em uma página relacionada à medicina, onde uma senhora dizia que médicos deveriam ser presos caso dessem qualquer orientação ou compartilhassem alguma notícia sem que houvesse algum "estudo científico" que comprovasse o que havia sido dito.  

    O que me causou espanto foi a quantidade de curtidas que o comentário obteve, e o que me deixou ainda mais perplexo foi que, ao observar os perfis de quem havia curtido, pasmem, a maioria era de médicos ou estudantes de medicina. Após refletir alguns dias sobre o comentário, lembrei-me da história do Dr Ignaz Smmelweis, o médico que foi internado em um hospício por insistir na ideia de que deveríamos lavar as mãos. 

    Ignaz Philipp Semmelweis nasceu em 1818 em Budapeste, capital da Hungria. Concluiu o curso de medicina em 1844 em Viena, capital da Áustria, tendo após isso decidido se especializar em Obstetrícia no Hospital Geral de Viena. Passado o tempo, começou a chamar atenção do Dr Semmelweis o fato de que na primeira clínica de obstetrícia a taxa de mortalidade materna pós-parto era de 10%, já na segunda clínica girava em torno de 4%. 

 
 

    A atitude do Dr Ignaz foi, primeiramente, unificar os procedimentos, a distribuição dos equipamentos, etc. Contudo, a diferença entre as taxas de mortalidade continuou significativa. O médico, após um período, constatou que as equipes eram diferentes. Na clínica de mortalidade mais alta, os profissionais eram médicos e estudantes de medicina. Já na de mortalidade mais baixa o serviço era realizado por parteiras. 

   A explicação encontrada pelo Dr Ignaz foi que os médicos e estudantes de medicina realizavam necrópsias e manuseavam os cadáveres no mesmo hospital antes de realizar o parto, o que poderia causar uma contaminação devido as "partículas cadavéricas". A partir daí o médico instituiu, no Hospital Geral de Viena, a prática de lavagem de mãos com hipoclorito de cálcio para médicos e estudantes de medicina antes de realizarem os partos, o que fez as taxas caírem significativamente já no mês consecutivo, fazendo as clínicas terem taxas semelhantes.

  Não obstante, apesar dos bons resultados, a prática não foi bem aceita pelos superiores do Dr. Semmelweis, fato que resultou em sua demissão. O médico retornou para seu país de origem onde passou mais alguns anos colocando em prática sua descoberta, porém sendo novamente desconsiderado e tratado como louco até mesmo por familiares, devido sua insistência na prática de higienização das mãos antes dos procedimentos.

   O Dr. Semmelweis foi internado à força, obrigado a usar camisa de forças e colocado em uma cela escura, tendo morrido duas semanas depois por infecção no dedo médio da mão direita, que causou uma infecção generalizada. Sua descoberta só passou a ser tratada com seriedade após o desenvolvimento da teoria de Louis Pasteur acerca dos germes das doenças, que ratificou a importância de técnicas de assepsia em cirurgias. 

    Por falta de "evidências", o Dr Ignaz Semmelweis foi levado a um hospício, onde morreu. Qual o preço de exigir que recomendações médicas baseadas em conceitos básicos da infectologia, fisiologia, farmacologia, etc. tenham ensaios clínicos randomizados para embasá-las? Quantas vidas foram ou poderiam ter sido salvas no Hospital Geral de Viena pela orientação de higienizar as mãos antes dos procedimentos? 

    Por fim, resta a dúvida sobre as curtidas do comentário citado no início do texto: será que esses médicos e estudantes desconhecem a história de sua profissão ou realmente concordam em serem presos ou internados por raciocinarem, assim como Ignaz Semmelweis?

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Crônica: O Anestesista - Autor: Rubem Alves.

    


    A anestesia foi a primeira de todas as especialidades médicas. São as Escrituras Sagradas que o afirmam. Pois Deus, para retirar de Adão a costela necessária para a criação de Eva, fez cair sobre o homem um sono profundo. Isso, fazer dormir, é ato de anestesista. Foi só então, depois de exercer as funções de anestesista, que Deus se transformou em cirurgião.
    Deus não queria que o homem sentisse dor. Uma cirurgia feita sem anestesia é uma experiência de uma brutalidade indescritível. Muitos prefeririam morrer a sofrer os horrores da dor de uma cirurgia sem anestesia.
    O livro "O físico" descreve como era a cirurgia antes da descoberta da anestesia. Amputação de uma perna. A pessoa amarrada. A navalha cortando a carne. Os gritos. As contorções do corpo. O sangue jorrando. Depois a serra e a costura da carne. Para terminar, o cautério com azeite fervente ou ferro incandescente.
    A dor é o que existe de mais terrível na condição humana. Muito cedo nós a experimentamos. O nenezinho chora e se contorce com suas cólicas. Delas não tenho memória. Mas me lembro das cólicas do meu primeiro filho, que chorou por seis meses, sendo que todos os chás, remédios e benzeções foram inúteis. A única coisa que aliviava era pegá-lo no braço e colocá-lo de barriga para baixo. Todo pai gostaria que os deuses fossem caridosos e transferissem para ele a dor do filho. Doeria menos sentir a dor do filho que vê-lo sentindo dor sem nada poder fazer.


    Meu filho Sérgio, o que sofreu cólicas por seis meses, é médico e se especializou em anestesia. É possível que Freud explique. Nossos impulsos vocacionais têm raízes em lugares obscuros da alma. O que não acontece com as escolhas profissionais, que nascem de considerações racionais sobre o mercado de trabalho. É possível que sua vocação de anestesista tenha nascido de suas experiências esquecidas de sofrimento. Aí ele sentiu que seu destino era lutar contra a dor.
    A anestesia é uma especialidade modesta. É o cirurgião que executa o grande ato! É ele que é o herói! É o seu nome que é lembrado. É o cirugião que ganha mais. E, no entanto, enquanto o cirurgião está com sua atenção concentrada no lugar preciso do corpo, que ele corta e costura, o anestesista está com sua atenção concentrada na vida adormecida. Ele vigia os seus processos vitais. Ele cuida para que a vida não vacile enquanto o corpo é cortado.
    Há também as dores da alma que nenhuma cirurgia consegue curar. O medo, por expemplo, não pode ser amputado. Pena. Porque o medo paralisa a vida. Dominada pelo medo, a vida se encolhe, perde a capacidade de lutar, entrega-se à morte. Animais amedrontados se deixam matar sem um único gesto de defesa. E, pelo que sei, as pessoas têm muito medo da anestesia, medo que chega a beirar o pânico, mais medo da anestesia que da violência do ato cirúrgico. É que elas têm medo de dormir. Quem dorme está indefeso, à mercê. Quem está dormindo volta a ser criança. As crianças têm medo de dormir. Por isso elas choram, não querem dormir sozinhas, desejam alguém ao seu lado. Alguém que cuide delas enquanto elas dormem. As canções de ninar são para tirar o medo a fim de que o sono seja tranquilo.
    A anestesia pode ser feita de duas formas. A primeira é a anestesia como ato técnico, científico, competente, ato que se executa sobre o corpo da pessoa que vai ser operada. A segunda é igual à primeira, acrescida de um cuidado maternal. O anestesista assume, então, a função do pai e da mãe que cantam canções para espantar o medo. Foi o Sérgio que me contou.
    Conversamos muito sobre o que fazemos. E como ele se orgulha do que faz, ele me conta. Contou-me sobre as visitas aos pacientes amedrontados, às vésperas da cirurgia. O objetivo dessa visista é técnico: checar o estado físico do paciente: pressão, coração, vias respiratórias, etc. Mas a pesssoa que está ali é mais que um corpo. É um ser humano. Está com medo. Medo da dor. Medo da morte, pois nunca se pode ter certeza. É preciso espantar o medo para que a vida não se encolha. mas o medo só sai quando se confia. Não é qualquer pessoa que tira o medo de dormir da criança. Há de ser alguém em quem ela confia. Essa pessoa, e somente ela, tem o poder de cantar uma canção de ninar. O anestesista se transforma então em mãe e pai: pega no colo a criança amedrontada - diante da cirurgia todos nós somos crianças!

Crônica: O Anestesista
Autor: Rubem Alves
Livro: O Amor que Acende a Lua

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Cinema e Medicina [4]: sobre o filme Até o Último Homem

    O filme Até o Último Homem é mais um dos que fariam parte de uma lista de filmes obrigatórios a serem assistidos por acadêmicos de medicina. Dirigido por Mel Gibson e lançado no Brasil em 2017, fez muito sucesso com o público em geral. 
   Baseado em uma história real, a obra leva aos cinemas a biografia do Cabo Desmond Doss, um paramédico do exército americano que durante a Segunda Guerra Mundial se recusa a portar armas, o que causa estranheza e incompreensão por parte de seus pares e superiores, levando-o a sofrer perseguições e até mesmo ser punido com prisão.

  
    
    A obra inicia apresentando a infância do protagonista. Apesar de ter crescido em um lar problemático, a fé cristã foi alicerce e guia para que ele seguisse pelo caminho do bem. Antes de entrar para as Forças Armadas Americanas, Desmond tinha o sonho de ser médico, contudo, devido dificuldades, não conseguiu realizar seu sonho.
    Seu período de treinamento foi bastante desafiador, tendo em vista que causou (e causaria) estranheza em qualquer militar o fato de alguém ter interesse em ir para a guerra sem portar uma única arma ou ser treinado para usá-la. Desmond Doss foi perseguido por seus superiores e por seus pares, tendo sido espancado e até mesmo preso, sendo apenas absolvido após o tribunal competente para julgá-lo ter recebido uma "carta" feita por um General ratificando os direitos dos militares à objeção de consciência religiosa.
   Após a devida autorização para ir à guerra sem armas e prestando serviço como paramédico, ele embarca em direção à Europa para integrar as Forças Americanas na Segunda Guerra Mundial.
    No campo de batalha o paramédico Doss demonstra uma coragem fora do normal, avançando junto à linha de frente, infiltrando-se sozinho em território inimigo e salvando vidas desde o primeiro confronto direto.
     O momento mais emocionante do filme é quando, após derrota em uma batalha direta, Desmond sozinho no campo de batalha começa a salvar os feridos que estavam abandonados. Fazendo uso de torniquete, realizando preenchimento de feridas, aplicando morfina e removendo os pacientes até a zona segura, o paramédico ali demonstrou ser virtuoso. Mesmo sob ataque, com uma inabalável, a esperança, a generosidade até mesmo com os que o agrediram durante o treinamento, a fidelidade, a lealdade e a perseverança brilharam como jóias. Havia algo de sobrenatural naquele homem, habitava nele o espírito do Ágape¹
    Já assistiu ao filme? Se sim, deixe nos comentários a sua impressão. 


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¹Ágape: Amor incondicional, baseado em comportamentos e pela escolha, sem esperar nada em troca.

domingo, 18 de outubro de 2020

Cinema e Medicina [3]: sobre o filme Quase Deuses

   O filme Quase Deuses sem dúvidas faria parte da lista de filmes obrigatórios a serem assistidos por estudantes de medicina, caso esta lista existisse. Lançado em 2004 nos Estados Unidos, e dirigido por Joseph Sargent, a obra aborda a história real de Vivien Thomas e do Dr. Alfred Blalock, os responsáveis pela descoberta e realização do primeiro procedimento de correção de Tetralogia de Fallot.
   A produção traz, com riqueza de detalhes, todo o processo enfrentado pelos protagonistas para desenvolver a técnica. Vivien, um negro vivendo em período de segregação racial, e Dr. Blalock, um médico enfrentado as limitações burocráticas e preconceituosas impostas por seus colegas de profissão. 




    A fase inicial da obra é centrada nos problemas pessoais de Vivien que, como citado acima, enfrentava um período de segregação racial nos EUA. Contudo, em nenhum momento o personagem age de forma vitimista ou desmotivada, muito pelo contrário, suas atitudes demonstram honra, nobreza moral e perseverança. Além disso, o autodidatismo de Vivien Thomas é admirável. Sua capacidade de assimilar e aplicar fisiologia e anatomia é rapidamente identificada pelo Dr. Blalock, que o incube de responsabilidades e torna-o parceiro de pesquisa imediatamente.
    A persistência da dupla em enfrentar os problemas que não paravam de surgir deixa qualquer telespectador, médico ou não, maravilhado. Cada fala de desprezo e preconceito proferida à dupla era desconsiderada e servia de combustível para mais trabalho e pesquisa. A capacidade de trabalho em equipe é um dos legados deixados pelo filme. Sem o "espírito de corpo", ação conjunta e auxílio mútuo, o processo não seria possível. 
      Apesar de tudo que enfrentou, o exemplo de superação de Vivien Thomas dá ao estudante de medicina um "norte" a seguir nos momentos de angústia e dificuldades: agir com confiança, dignidade, entusiasmo, coragem e, acima de tudo, com vontade. O fruto da sinergia entre essas virtudes o fez ser o instrumento mais importante para a descoberta que já salvou milhões de vidas.
       Bem, resta-me recomendar que assistam ao filme e que deixem suas opiniões nos comentários.